Quero iniciar essa pequena reflexão introduzindo o pensamento do livro do Apocalipse. Muitas interpretações já foram feitas a partir deste livro tão interessante, muita escatologia (doutrina do fim dos tempos) já foi escrita com base nessas páginas da bíblia. Com base em tudo o que li¹, recebi de mestres e fruto das minhas “reflexões” quero mostrar outra forma de compreendê-lo.

A mensagem que carrega o livro do Apocalipse é uma mensagem de esperança para um povo que luta, um povo que sofre nas mãos de um império impiedoso. Esta é a chave de interpretação deste livro, não é correto interpretá-lo como um livro que só trata de assuntos futuros, é incoerente, é reduzir a experiência da comunidade que escreveu este livro a nada e reduzir a nossa experiência ao lê-lo. Este livro é como uma noz, para se comer a noz é necessário quebrá-la, não se come a noz com casca e tudo, é indigesto, a mesma coisa é o livro do Apocalipse, ele é uma noz, ao ser lido ao pé da letra é como se essa noz fosse comida com casca e tudo, mas ao quebrá-la nós encontramos a graça que ela tem, e a graça do Apocalipse é compreender a história vivida pelos cristãos neste tempo e conseguirmos encontrar o que realmente importa nele: a revelação de Deus, a semente da esperança em meio a uma luta que parece não ter fim, a semente da fé e do amor de Deus!

Este livro foi escrito em um momento difícil que foi enfrentado pelas comunidades Cristãs do primeiro século. Perseguições, assassinatos, esse foi o conflito travado entre a Igreja e o Império Romano. Em meio a imposição a adoração aos reis-deuses que surge esse livro maravilhoso e tão pouco compreendido por nós. Não pretendo fazer um passeio por todo o livro, mas pretendo situar essa reflexão em Apocalipse 13.

“Vi uma besta que saía do mar. Tinha dez chifres e sete cabeças, com dez coroas, uma sobre cada chifre, e em cada cabeça um nome de blasfêmia.

A besta que vi era semelhante a um leopardo, mas tinha pés como os de urso e boca como a de leão. O dragão deu à besta o seu poder, o seu trono e grande autoridade.

Uma das cabeças da besta parecia ter sofrido um ferimento mortal, mas o ferimento mortal foi curado. Todo o mundo ficou maravilhado e seguiu a besta.

Adoraram o dragão, que tinha dado autoridade à besta, e também adoraram a besta, dizendo: “Quem é como a besta? Quem pode guerrear contra ela?”

À besta foi dada uma boca para falar palavras arrogantes e blasfemas, e lhe foi autoridade para agir durante quarenta e dois meses.

Ela abriu a boca para blasfemar contra Deus e amaldiçoar o seu nome e o seu tabernáculo, os que habitam no céu.

Foi-lhe dado poder para guerrear contra os santos e vencê-los. Foi-lhe dada autoridade sobre toda tribo, povo, língua e nação.

Todos os habitantes da terra adorarão a besta, a saber, todos aqueles que não tiveram seus nomes escritos no livro da vida do Cordeiro que foi morto desde a criação do mundo.

Aquele que tem ouvidos ouça: Se alguém há de ir para o cativeiro, para o cativeiro irá. Se alguém há de ser morto à espada, à espada haverá de ser morto. Aqui estão a perseverança e a fidelidade dos santos.

Então vi outra besta que saía da terra, com dois chifres como cordeiro, mas que falava como dragão.

Exercia toda a autoridade da primeira besta, em nome dela, e fazia a terra e seus habitantes adorarem a primeira besta, cujo ferimento mortal havia sido curado. E realizava grandes sinais, chegando a fazer descer fogo do céu à terra, à vista dos homens. Por causa dos sinais que lhe foi permitido realizar em nome da primeira besta, ela enganou os habitantes da terra. Ordenou-lhes que fizessem uma imagem em honra da besta que fora ferida pela espada e contudo revivera. Foi-lhe dado poder para dar fôlego à imagem da primeira besta, de modo que ela podia falar e fazer que fossem mortos todos os que se recusassem a adorar a imagem. Também obrigou todos, pequenos e grandes, ricos e pobres, livres e escravos, a receberem certa marca na mão direita ou na testa, para que ninguém pudesse comprar nem vender, a não ser quem tivesse a marca, que é o nome da besta ou o número do seu nome.  Aqui há sabedoria. Aquele que tem entendimento calcule o número da besta, pois é número de homem. Seu número é seiscentos e sessenta e seis.” (Grifo meu)

Não quero dar todos os detalhes deste capítulo e nem poderia no limite deste texto, mas quero por em evidencia a chamada “Marca da Besta”, o tão famoso “666”, mas para isso vou explicar os personagens deste texto. As “Bestas” são os imperadores romanos, Nero (Reinado – 54-68 d.C) e Domiciano (Reinado – 81-96 d.C). Domiciano por sua impiedade era tido como a ressurreição de Nero, que segundo a tradição Cristã foi o assassino de Paulo e Pedro. A “besta que saía da terra” é o “Porta-voz do império”, todo aquele que anuncia o império como um lugar pacífico, a chamada “Oikoumene” ou “Casa de todos”, a terra onde tudo é “bom”. A “marca na mão direita ou na testapossui uma grande mensagem que harmoniza com todos os significados descritos acima. Na língua hebraica não havia símbolos para números (ex: 1,2,3 – Sistema numérico indo-arábico; I, II, III, IV – Sistema numérico romano), mas os números eram simbolizados pelas letras do alfabeto. A mensagem escondida por trás do número é “Cesar Nero”, o grande imperador Nero descrito no mesmo capítulo. Alguns podem me dizer: “O livro do Apocalipse foi escrito em grego koiné”, sim, mas o escritor deste livro tem a forma de hebraica de pensar, pois existem vários erros de sintaxe no livro que indica que o autor escreve grego como se estivesse escrevendo hebraico.  Sendo assim, o que é a “marca na mão direita ou na testa se não a forma de pensar e de agir do império? É neste contexto que a Igreja do primeiro século é conclamada a reagir à contaminação da filosofia do império dentro das comunidades. Sua forma desumana de governar, obrigando a comunidade Cristã a se dobrar ante seus intitulados “imperadores-deuses”, cujo chavão de um deles era: “Domiciano é o nosso deus e senhor” e o lema de governo do estado romano era: “As nações vizinhas podem até padecer escravidão, mas a liberdade é própria dos romanos”.

Ao invés de tomar como ponto de partida uma interpretação escatológica, este texto passa ser mais atual do que nunca. A desigualdade, a sociedade consumista, a corrupção, o governo sujo, porta-vozes reais, os reis-deuses estão espalhados por aí governando nosso país, nosso estado, nossa cidade, esses são as verdadeiras bestas, falsos profetas e suas marcas, a principal delas que vejo como a raiz de todo o mal é: a sociedade consumista. O “capetalismo” como gosto de chamá-lo é o verdadeiro mal enraizado em nosso caráter, me incluo nisso, pois essa cultura está dentro de mim. Os valores do Reino de Deus: a igualdade, o amor, a dignidade e a vida não estão inclusos nesta forma de pensamento. Infelizmente nossas paróquias ao ver tudo isso, simplesmente se calam. Vamos voltar um pouco no calendário, será que ninguém se lembra da Ditadura Militar, do “Ato-institucional 5” e das mortes causadas pelo governo neste período? Será que nenhum cristão que viveu essa época se recorda de quantas igrejas evangélicas apoiavam o estado e suas atrocidades, alegando que “toda autoridade vinha da parte de Deus”? Será que ninguém se lembra de alguns líderes (vulgo ‘pastores’) que denunciaram membros de suas igrejas a ditadura? E nesse exemplo quem eram os porta-vozes ou as “bestas que saíam da terra”?

E o descaso com que tratamos os pobres e os necessitados, inclusive de nossas comunidades. Confesso que tenho vergonha de escrever sobre essa parte, pois sou omisso. São os pobres que contracenam com Jesus em todo o evangelho de Lucas, essa é uma das grandes questões teológicas pra este evangelista, a valorização deles, enfatizando que o Reino é deles, como por exemplo: a visita a Jesus pelos pastores (Lc 2), sabendo que o pastor de ovelhas tinha a profissão menos valorizada; o cântico de Maria, o chamado Magnificat onde está escrito: “Depôs dos tronos os poderosos, E elevou os humildes. Encheu de bens os famintos, E despediu vazios os ricos.” (Lc 1:52, 53); ou a parábola do Rico e do Lazaro (Lc 16) onde as situações mudam o rico vira pobre e o pobre vira rico, creio ser suficiente de exemplos.

Confesso que não sei como concluir esse texto, a melhor forma de reagir contra esses valores Anti-Reino de Deus é com os valores do próprio Reino, o Evangelho propõe revolução, mas não começando nas camadas mais altas da sociedade, mas uma subversão que começa por baixo, a partir do povo e que depois é sentida pela elite. Quais são esses princípios elementares do Reino? Não consigo uma resposta melhor do que o credo da Igreja Batista de Água Branca: “Ser um sinal histórico do Reino de Deus, Levando o evangelho todo para o homem todo, Priorizando relacionamentos, Envolvendo todos os seus frequentadores, Além dos limites culto-clero-domingo-templo.”. O que seria “levar o evangelho todo para o homem todo” se não atingir o homem em todas as esferas de sua existência, por que Deus não precisa de “almas”, mas vidas, pessoas, isso é importante pra Deus.

A marca da besta está de uma forma ou de outra em nossas testas ou em nossas mãos, cabe a nós rejeitá-la ou não, aceitar os valores de um governo sem Deus ou não, esse é o papel da Igreja, subverter os valores da sociedade, e definitivamente não sou um anarquista, não sou um comunista, nem socialista estou apenas dando um passo de cada vez pra compreender isso tudo, sinto muito não poder oferecer mais do que isso.

Concluo com uma frase do Frei Betto: “Uma época só muda quando morrem seus deuses. E o deus de hoje é o dinheiro, seu oráculo, o mercado, sua liturgia, o consumismo”

Abs,

Ronaldo Júnior.

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Sobre Rodrigo Gomes

Um apaixonado por Jesus e que quer, cada vez mais, tornar-se semelhante a Ele. Buscando um coração justo e sincero, e o amor ao próximo.

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  1. Ronaldo, parabéns!
    Um dos melhores textos que já li sobre o assunto. O chamo de um dos melhores por sua simplicidade, objetividade e praticidade.
    Vindo de um rapaz novo como você me traz também a esperança de que teremos bons pensadores para essa nova geração.

    Fica o meu abraço e minha admiração.
    Anésio Rodrigues

  2. Cristina disse:

    Ronaldo Junior parabéns pelo seu texto.Toda reflexão nos leva a mudanças.Que nós possamos a cada dia cumprir o que o nosso Mestre Jesus nós ensinou de uma forma simples,sem muita filosofia, mas na prática:”Amarás,pois, o Senhor, teu Deus,de todo o teu coração,de toda a tua alma,de todo o teu entendimento e de toda a tua força”.(Mc:12-30)

    “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”.(Mc:12-31)

  3. Ricardo Antoniassi disse:

    Ronaldo, me sinto honrado e orgulhoso por ler um texto com essa profundidade e sentimento, que expressa verdades para pensarmos, como pessoas, como cristãos.
    Sou orgulhoso por isso e o incentivo a ser um agente de mudança em nosso tempo.
    Parabéns mais uma vez. Não pare, jamais!

  4. REV disse:

    Valeu Ronaldinho, ficou muito bom!

  5. Rodrigo (Jhow) disse:

    Parabéns pelo texto Ronaldo! É uma visão interessante e eu nunca tinha visto dessa maneira…
    Aliás, não me lembro de muitos estudos ou pregações que se utilizassem desse livro da bíblia, mas esse resumiu de forma clara.
    “O temor do Senhor é o princípio do saber” – Provérbios 1:7a

  6. CaioMGA disse:

    Putz!
    Fodã…Junior, mandou bem!

  7. fabio disse:

    Ronaldo, parabéns!
    O seu texto foi ótimo! Preciso repetir o que já foi dito, a simplicidade e a objetividade dele são ótimas! Confesso que esse texto serviu para me fazer pensar no assunto e me fez desejar mais ainda uma intimidade com Deus, de modo que eu posso tomar uma atitude firme contra os valores podres da sociedade “capetalista.”
    Muito obrigado por ter partilhado esses seus pensamentos! Uma abraço e kiss nas kids!

  8. diego hebert disse:

    peso pra todos da nossa gerasao que orem para nois nao sermor obrigado a ter a marca da besta e para que vivemos os restos de vidas do mesmo geito com endentidades ou entao vou pra roça

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